24 de jan. de 2014

Tecnologia das Leslie (Rotary Speaker)


Alguns de vocês não viram, mas com certeza já ouviram as caixas Leslie em ação, em músicas como "Black Night" (Deep Purple) e o blues/rock "Green Onions" (Booker T) em seus hammonds ou em várias faixas do álbum "Dark Side of the Moon" do Pink Floyd na guitarra do Mr. Gilmour.
Dessas caixas surgiram pedais como o Univibe e outras tentativas de simular o "som Leslie", um dos mecanismos mais interessantes e intrigantes criados naquela época, eu garanto!

Antes de começarmos, o convido a ver 60 segundos da caixa leslie funcionando com esse sujeito que fez um vídeo tocando Green Onions, e em seguida continuar lendo o artigo ouvindo esse som enquanto compreende como ele foi criado:





Don Leslie, o cara que consertava rádios:
Na década de 30 começavam a surgir os primeiros Hammonds e o Sr. Leslie, também músico amador, tinha um em sua casa. Apesar de apreciar o instrumento ele dizia que o timbre era sem vida.
Por volta de1937-1938 uma pickup passou por ele com um sistema de som montado na caçamba, com cornetas como ainda é usado. Era um anúncio de propaganda política mas Don notou que a medida que ele se aproximava e distanciava o som parecia ter mudado a sua tonalidade, o que ele experienciou o Efeito Doppler. Lembre-se que ainda não havia nada parecido com Chorus, Phaser, Flanger ou efeitos de modulação e agora ele estava tentado a tentar recriar esse efeito de alguma maneira para dar vida ao som seco do seu Hammond.
No outro dia ele foi até uma loja comprar um autofalante barato e tentar acopla-lo a uma estrutura giratória que distribuisse o seu som pela sala. Nascia a Caixa Leslie.

O mundo é um lugar pequeno:
Um organista de studio que trabalhava para uma rádio da época, Bob Mitchel, por uma coincidência feliz, comentou com a Srta. Carolyn Leslie (sim, a esposa do cara!) que trabalhava nessa mesma rádio que achava o som do seu Hammond seco e sem vida e pretendia troca-lo por um órgão de tubo pelo som fluido. Carolyn disse: "Não compre nada até ouvir a invenção do meu marido!"
Em uma manhã de domingo em Altadena na California na sala de estar do Sr. Leslie o Sr. Mitchel se sentou e tocou o instrumento, alguns segundos depois Leslie ativa uma chave e o assombra, a vida estava ali!

Bob, o cara egoísta:
O Sr. Mitchel com algum trabalho convenceu Williard Brown, o diretor de programação da KFI a comprar uma dessas caixas tão especiais e com a condição de que nenhum outro organista da rádio deveria usa-la, seria o timbre dele e ele não queria ninguém copiando.
Ainda sim Mitchel apresentou Leslie a Williard Brown, que colocou alguns engenheiros da CalTech para trabalhar no projeto da sua caixa, mas, nas palavras de Leslie: "Eles arruinaram a ideia por não ter entendido o conceito e sua versão não funcionava muito bem. Além disso Brown desistiu do projeto quando ele tentou patentear a invenção e descobriu ser impossível por um projeto parecido feito em 1920 de um fonógrafo que girava 3 cornetas para que todas as pessoas da sala ouvissem a música.
Brown disse ao Leslie para refazer o design de maneira a diferencia-lo da outra patente e poder produzi-lo. Depois de alguns experimentos Leslie chegou ao modelo com as cornetas e um refletor de graves montado em um gabinete.

Propaganda e comercialização:
Leslie gravou alguns takes do Bob Mitchel tocando seu hammond em uma caixa Leslie, segundo eles a primeira música gravada usando essa combinação foi “Tea for Two". Também instalaram um modelo no "Mona Lisa bar" (onde Mitchel era o músico da casa), próximo ao "Penny-Owsley Music Store" (casa dos os representantes da Hammond) e as pessoas da Music Store começaram a vir até o bar, intrigadas pelo som daquele Hammond em particular, perguntando ao Mitchel como ele conseguia aquele timbre, mas Don Leslie havia lacrado sua caixa de maneira a ninguém conseguir visualizar o que havia dentro.
Após algum tempo deixando a curiosidade dos músicos crescer, Leslie se ofereceu para levar um modelo para demonstrar na loja, e o Sr.
Penny-Owsley convidou cerca de 50 organistas para conhecer a novidade.
Apesar de todos terem ficado impressionados com o som e querer ter sua própria caixa Leslie, a Hammond não ligou para Don no prazo estipulado por ele e o próprio começou a criar e comercializar essas caixas sem patrocínio ou sociedade com a Hammond, que apenas 17 anos mais tarde ligou para tentar comprar os direitos sobre o projeto. Tarde demais. Não conseguindo o que queria a Hammond tentou recriar o efeito com vários projetos mas nenhum deles conseguiu diminuir o brilho do original.


Contada a história, vamos a parte técnica!

Efeito Doppler:


Para quem pulou essa materia do colegial ou só não está bem lembrado, o efeito Doppler é a mudança de frequência de uma onda quando há um movimento ocorrendo entre a fonte e o observador da mesma.
Simplificando: Se há uma fonte sonora em movimento (como um carro tocando música, passando por você) ou se você está  passando em frente à uma casa de shows você está testemunhando o efeito Doppler. Vale lembrar que ele também funciona para outro tipo de ondas, a luz por exemplo.

Para ficar mais fácil visualizar o motivo disso, a primeira imagem mostra uma fonte parada emitindo ondas de uma determinada frequência "f". Observe que elas são simétricas e constantes.
A segunda imagem demonstra uma fonte em movimento, e é notável a diferença da distância entre as ondas do lado esquerdo e do lado direito. Podemos afirmar que um observador à esquerda estaria ouvindo uma frequência mais baixa do que a emitida originalmente, ao passo que um observador a direita estaria ouvindo uma frequência mais alta.

Não vou entrar em mais detalhes para não fugir muito ao assunto do tópico, mas o efeito doppler é um grande responsável pela sonoridade da  caixa Leslie e isso deve o bastante para compreender o princípio.


Estrutura e funcionamento:

A foto ao lado é de uma "Leslie 122" original, vale lembrar que outros modelos foram produzidos e utilizados, mas os que se consagraram e se tornaram lendários foram os que usaram esse design.
Observando a parte de baixo notamos um amplificador valvulado para o conjunto, um autofalante de 15" para os graves e um motor ligado a uma peça de madeira abaixo dele, funcionando como defletor (essa peça que gira) acoplado ao autofalante.
Na parte de cima um driver de médios (que está coberto) é ligado a duas cornetas que também são giradas por um segundo motor no sentido contrário ao giro do conjunto de graves.
Acontecem 3 efeitos aqui:
- FM: Modulação de frequência, o efeito doppler.
- AM: Modulação de amplitude, a perda de "volume" que é notada quando os defletores não estão apontando para você, por motivos óbvios.

- Reverberação dinâmica: Com a fonte sonora girando dentro de uma caixa as reflexões acontecem em distâncias e ângulos diferentes antes de sairem pelo duto e refletirem na sala onde a caixa está.

Leslie criou modelos diferentes desse mas com o mesmo objetivo de recriar o efeito Doppler e por vários motivos, incluindo o elevado preço e rara disponibilidade, alguns hobbystas chegaram a construir suas próprias Leslies. A foto ao lado mostra uma forma criativa de criar uma Leslie a partir de coisas que o inventor tinha disponíveis.

Alternativas e simuladores:
Além de não serem exatamente leves e praticas de serem carregadas, exigirem manutenção cuidadosa e especializada, geralmente são caras e difíceis de serem encontradas, então algumas empresas criaram efeitos que simulam a Leslie, alguns exemplos são:

- DLS RotoSIM
- Hughes & Kettner Rotoshpere
- Boss RT-20
- Neo Ventilator

Univox Univibe:
O efeito que realmente ficou famoso para a guitarra, apesar de não ser o mais próximo da Leslie (por ironia do destino, talvez) foi o Univibe, também por causa do Hendrix, que já havia popularizado o fuzz e o wah-wah. Depois ele também viria a ser recriado por várias empresas na forma de dezenas de pedais que partiram desse ancestral comum.
Vale ressaltar que enquanto caixas Leslie tinham uma chave para selecionar a velocidade de rotação entre rápida e lenta, o univibe tinha um pedal de expressão para controla-la em qualquer ponto entre o mínimo e o máximo, permitindo um ajuste fino e mudanças durante a execução do instrumento. Talvez futuramente eu escreva um artigo apenas a respeito dessa outra peça de tecnologia a favor dos guitarristas nascida em 70.

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